Por Marianne Kellner Haak e Renato de Faria e Almeida Prado
Nos últimos dias, circularam nas redes sociais algumas opiniões sobre cursos de formação para conselheiros, a legitimidade de quem busca se qualificar e o real tamanho do mercado. Ao invés de entrar em confronto direto, preferimos fazer o que bons conselheiros fazem: propor uma reflexão mais ampla, considerando diferentes perspectivas, com base em dados e vivências concretas.
O valor da experiência – mas qual experiência?
Falar em experiência como pré-requisito é legítimo. Mas desqualificar quem está em busca de formação por meio de generalizações ou insinuações pode limitar a visão sobre o valor da diversidade de trajetórias. Muitos que hoje se dedicam à formação como conselheiros trazem uma longa experiência e vivência no setor privado, em lideranças de impacto e buscam exatamente contribuir de forma mais estratégica – e responsável.
Boa parte das instituições sérias de formação faz uma triagem rigorosa dos candidatos. Muitos de nós fomos entrevistados, tivemos nossos currículos analisados e fomos desafiados quanto à motivação e à contribuição que poderíamos trazer. A crítica genérica desconsidera esses processos com um olhar que pode parecer apressado.
O preconceito com o novo
Provocar o pensamento crítico é parte da responsabilidade de um conselheiro. No entanto, desqualificar caminhos que não foram vivenciados ou compreendidos pode enfraquecer o próprio argumento. Dizer que cursos não servem sem ter passado por eles é, no mínimo, uma hipótese pouco embasada. A inteligência coletiva nasce do confronto respeitoso de ideias – e não da invalidação de experiências alheias.
Um conselho forte valoriza a diversidade de perspectivas e a escuta ativa. Visões divergentes são bem-vindas porque enriquecem as decisões.
Escassez x abundância
Há quem enxergue escassez no mercado de conselheiros, limitando sua análise às empresas listadas na B3. Preferimos enxergar abundância. O Brasil possui cerca de 6,4 milhões de empresas, e segundo o Ibgc e dados da PwC Brasil, mais de 90% são familiares. Embora muitas ainda não tenham conselhos estruturados, estimativas indicam que ao menos 400 mil empresas já teriam porte e maturidade suficientes para se beneficiar de governança mais robusta – como conselhos consultivos ou de administração (PwC, 2019; Ibgc, Governança em Empresas Familiares).
A maturidade do ecossistema de governança cresce à medida que mais empresas compreendem seu valor. E quanto mais pessoas se formam, se informam e compartilham esse conhecimento, mais esse ecossistema se expande.
Formação é degrau, não atalho
Buscar formação não é buscar um atalho. É sinal de humildade, desejo de preparo e responsabilidade com o papel que se deseja assumir. É legítimo esperar que um curso ajude na colocação no mercado – e oferecer garantias de devolução em caso contrário é uma prática transparente e de boa fé, quando feita por instituições sérias.
Sobre a remuneração: ela é, sim, atrativa. Mas não pelo “número de horas trabalhadas”, e sim pelo valor aportado. Um conselheiro contribui com experiência, redes de contato, visão estratégica e capacidade de leitura sistêmica – atributos que exigem décadas de construção.
O Conselho que queremos
Queremos conselhos com múltiplas gerações, com diversidade. Com gente que pensa diferente, que desafia o status quo. Queremos conselhos diversos, onde cada um traga algo único à mesa. Um ambiente onde hora ouvimos, hora ensinamos e transmitimos vivências e experiências e todos aprendem juntos.
Queremos conselhos formados por pessoas que, acima de tudo, sabem fazer perguntas. Porque conselheiro que não escuta, que não dialoga e que não amplia a conversa está mais próximo de ser um monólogo do que um mentor.
E você?
Que tipo de conselho você quer construir em sua empresa?
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn.
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